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Alguns dos grandes nomes da Moda - Parte 2

No post anterior, falei de três grandes nomes da moda, Charles Frederick Worth, Paul Poiret e a grande Coco Chanel. Se você perdeu, clique aqui e descubra um pouco sobre cada um! Falarei de mais alguns grandes nomes da moda, como Elsa Schiaparelli, Christian Dior e Yves Saint Laurent. Eu sou o tipo de pessoa que gosta e muito de pesquisar a história para poder construir o presente e futuro, acho importante ler e aprender com o passado, tirar exemplos do que se deve ou não fazer, a história pode ser inspiradora...enjoy!

 

Elsa Schiaparelli (1890-1973)

Elsa Schiaparelli nasceu em Roma, numa família abastada e aristocrática. Estudou filosofia na Universidade de Roma, mas foi enviada para um convento após publicar um livro de poesia sensual. Só conseguiu sua libertação após uma insistente greve de fome. Ainda jovem, morou em Londres e logo após se casar com o conde Wilhelm de Wente de Kerlor, mudou-se para Nova York. Lá ficou amiga da esposa de Francis Picabia, Gaby Picabia, que possuía uma boutique de roupas francesas. Trabalhou com Gaby e nesse meio conheceu outros artistas como Man Ray e Marcel Duchamp. Esse ambiente contribuiu e muito para a mente criativa de Elsa ou Schiap, como era conhecida.

 

Elsa Schiaparelli    Foto: ©Getty Images

 

Em 1920, enquanto ainda morava em Nova York,  seu marido a trocou por Isadora Duncan, uma grande coreógrafa e bailarina americana considerada por muitos, a precursora da dança moderna. Após esse evento, a futura estilista mudou-se para Paris, com a filha e sem nada. 
A entrada definitiva para o mundo da moda foi através da amizade que fez com Paul Poiret. Sua primeira invenção foi um suéter de tricô preto com laço branco trompe-l’oeil (é uma técnica artística que, com truques de perspectiva, cria uma ilusão de ótica que faz com que formas de duas dimensões aparentam possuir três dimensões). Logo conseguiu uma encomenda de 40 peças desse modelo e, conquistou assim, sua primeira cliente particular, Anita Loos, autora do livro: Os homens preferem as louras.

 

Graças à sua criatividade e o bom relacionamento com alguns artistas da época, seu negócio foi expandindo e, em 1935, abriu uma das primeiras boutiques de alta-costura após se mudar para a Place Vendôme. 
Sob grande influência de seus amigos surrealistas, Schip aliava, criatividade e irreverência em tudo que lançava, sua colaboração com Dalí e Jean Cocteau especialmente, lhe rendeu suas criações mais famosas (collabs são bem antigas!). Alguns exemplos para lá de exóticos que criou em parceria com Dalí: o chapéu-sapato, vestido lagosta e vestido esqueleto. 

       

Chapéu sapato, 1937

 

Vestido lagosta, 1937

 

    

Vestido esqueleto, 1938. vocês usariam?

 

Se você já ouviu falar no rosa shocking, essa cor foi inventada pela estilista que tinha verdadeira fascinação pelo tom. Ela conta na sua autobiografia que a cor foi inspirada no diamante Cartier da sua amiga Dayse Fellowes. Sua definição da cor:  

 

"bright, impossible, impudent, becoming, life-giving, like all the light and the birds and the fish in the world but together, a colour of China and Peru but not of the West - a shocking colour, pure and undiluted”.

 

A cor foi usada na embalagem e nome de seu primeiro perfume e, posteriormente, em suas coleções.

 

Vestido com a cor rosa shocking, 1938

 

Como é de se esperar, Schiap vestiu muitas personalidades da época. Wallis Simpson usou seu famoso vestido Lagosta, (retratada pelas lentes de Cecil Beaton, um grande fotógrafo do século XX), Marlene Dietrich, Katherine Hepburn e sua amiga Dayse, Fellowes são algumas delas.

 

Marlene Dietrich em Elsa Schiaparelli

 

Vestido lagosta por Wallis, Simpson

 

Katherine Hepburn

 

Elsa Schiaparelli e Coco Chanel eram rivais, no estilo e na vida. Chanel costumava se referir à Schiap como “aquela italiana que faz roupas”. Apesar de rivais, cada uma conquistou bem o seu espaço na moda. Durante a Segunda Guerra Mundial enquanto Chanel se hospedou no Ritz (e lá viveu até o fim de seus dias), Schiap retornou aos EUA. Com o término da guerra, a estilista voltou para Paris e prosseguiu na maison até 1954, quando decide sair porque não se encaixava mais na no espírito do tempo e a forma que a alta costura vinha se comportando: com o pós-guerra, o prêt-à-porter dominou o mercado. Após apresentar sua última coleção, a estilista dedicou-se a seu mais novo projeto: uma autobiografia. Escrita em primeira e terceira pessoa alternadamente, o livro narra um pouco da sua trajetória e histórias de vida, mas alguns estudiosos dizem não ser uma leitura fiel de sua vida.

 

Sua autobiografia, segundo alguns, controversa

 

Christian Dior (1905-1957)

 

magnífico retrato de Dior em seu apartamento em Paris, entre final de 1946 e início de 1947, fotografia: Brassaï
Granville, Musée Dior, Catherine Dior collection
© Estate Brassaï - RMN-Grand Palais

 

Dior nasceu em Granville, em uma família que tinha como negócios, a fabricação de agrotóxicos. Embora contra sua vontade, estudou ciência política, mas logo seguiu seus instintos: abriu uma galeria de arte com um amigo que teve alguns dos grandes nomes como: Pablo Picasso, Marcel Duchamp, René Magritte, Alberto Giacometti, Max Ernst e Juan Miró. Por causa da grande depressão no final da década de 20, teve que fechar as portas.
Em 1935 Iniciou sua jornada na alta costura vendendo seus desenhos para algumas maisons. Em 1938 foi contratado por Robert Piguet, mas com o avanço da Segunda Guerra, precisou servir ao exército no sul da França. Ainda durante a Segunda Guerra, completado seus serviços militares, Dior retornou para Paris, onde passou a trabalhar com Lucien Lelong e posteriormente Pierre Balmain. 

 

Vogue, Novembro 1952. Fotografia Frances McLaughlin-Gill

 

Dior teve a ajuda do magnata fabricante de tecidos Marcel Boussac, que financiou sua maison à partir de 1946. O estilista não poderia ter acertado tanto na sua silhueta New Look em sua primeira coleção, que teve como premissa o resgate da feminilidade em troca da austeridade dos tempos de guerra. Dior nunca mais seria esquecido, seus vestidos com saias rodadas, cintura marcada e muito tecido (o que era proibido no período da guerra, os metros das roupas eram controlados porque grande parte era direcionado para o esforço de guerra), voltaram à trazer o sonho, a delicadeza esquecidos durante todo o período do conflito.

 

silhueta New look, 1947

 

A coleção New Look foi um resgate da moda para Paris, foi apresentada em embaixadas francesas no mundo todo, levando assim, magnatas, famílias reais e personalidades públicas a comprarem suas novas peças. Tamanho sucesso, fez seu investidor contratar muitos funcionários e um gerente de negócios, Jacques Rouet. Com tudo isso, a pressão para que suas criações fossem sempre inovadoras e criativas, só aumentou. 
No mesmo ano de seu debut, Dior lançou seu primeiro perfume: Miss Dior, em homenagem à sua irmã, que fez parte da resistência francesa, capturada em Ravensbruck e libertada em 1945. Sua fragrância exprime a delicadeza das flores, uma paixão de Dior. Quando criança, o futuro estilista tinha o hábito de admirar as flores no jardim de sua casa em Granville e, como esses aromas fizeram parte de sua infância, pediu ao perfumista que sua nova fragrância tivesse notas florais e exalasse o amor.

"A outra noite eu sonhei que eu era um garotinho de novo e voltei para Granville com a minha mãe (...) saímos juntos do outro lado da entrada, de frente para minhas rosas, de frente para todos os aromas de flores, das mulheres do meu patrimônio encantado" 

 

      

Propaganda Miss Dior, e frasco do perfume de mesmo nome, 1947

 

After woman, flowers are the most lovely things God has given the world

 

A feminilidade e delicadeza da propaganda projetada pelo artista René Gruau rendeu uma parceria entre os dois gênios até a morte prematura de Dior em 1957.

 

    

     

Ilustrações de René Gruau para Dior

 

Com uma pessoa para cuidar da parte comercial, Dior conseguiu manter sua criatividade afiada e lançou muitas outras tendências como a gola ferradura, a linha trapézio, casaco cardigã, sem falar das silhuetas em A, H e Y. 

 

Exemplo de silhueta H, Dior

 

Dior construiu um império, em apenas 10 anos a maison conquistou definitivamente seu espaço na alta-costura com maestria. Ainda hoje é uma das grandes labels que ditam o mercado de moda de alto luxo. Vários grandes estilistas já passaram pela Dior: logo após sua morte, um jovem que também seria um ícone na moda assume sua posição: Yves Saint Laurent. Seguiram outros grandes nomes como Marc Bohan, Gianfranco Ferrè, John Galliano (com uma saída tumultuada por conta de uma atitude antissemita), Raf Simons (que assumiu por pouco tempo) e atualmente, pela primeira vez, temos uma mulher à frente da label, Maria Grazia Chiuri desde 2016. 
Em 2017 tive a oportunidade de ver uma exposição Dior em Paris, em comemoração ao 70º ano de criação da House of Dior, é impossível transmitir em palavras a delicadeza, elegância e magnitude das roupas feitas pela maison Dior, compartilho aqui algumas imagens. Foi como estar em um conto de fadas!

 

     

 

Yves Saint Laurent (1936-2008)

 

Yves Saint Laurent ©Getty Images

 

Nascido na Argélia, mudou-se para Paris ainda quando era adolescente e começou sua carreira em uma das maiores casas de costura da época. Se você leu acima sobre Christian Dior, sabe que ele começou muito jovem como seu assistente e assumiu a House of Dior logo após sua morte, em 1957, aos 21 anos. Até conseguir o trabalho de assistente na maison, quando criança, Yves fazia bonecas de papel e desenhos de roupas para sua mãe e irmãs. Nem precisa mencionar que obviamente ele não se enquadrou nos modos dos rapazes da época e sofreu constantemente o que chamamos hoje de bullying. Aos 17 anos sua mãe conseguiu organizar um encontro com Michael de Brunhoff, editor da Vogue francesa, (só o editor da Vogue Francesa, precisa mais?) e após um ano o jovem promissor mudou-se para Paris. 
O mesmo editor (acho que ele era uma espécie de anjo do Yves) o apresentou a Christian Dior e voilá, iniciou-se uma carreira bem sucedida! 

 

Yves Saint Laurent ainda jovem, entre modelos, na maison Dior, por volta de 1958

 

Yves permaneceu na maison Dior até 1960, quando foi chamado para lutar pela independência do seu país, a Argélia. Por motivos de saúde, permaneceu por pouco tempo  nessa missão e, ao retornar a Paris para seu posto na Dior, descobriu que esse não estava mais disponível, Marc Bohan havia assumido seu lugar. O designer processou a maison por quebra de contrato e como resultado, arrecadou 48.000 libras.
A sorte mais uma vez estava a seu lado. Com o dinheiro, resolveu abrir sua própria casa de moda juntamente com seu companheiro, Pierre Bergé, que o apoiou até o fim de seus dias, embora tenham se separado em 1976, Bergé continuou sendo o homem de negócios e Yves a mente criativa, nenhum intervia no negócio do outro.
Seu espírito jovem ia de encontro aos acontecimentos dos anos 60: sua paixão por arte, Op e Pop Art e o cinema com muitas musas, o fizeram partilhar sua criatividade com figurinos desenhados para Claudia Cardinale e Capucine (A pantera cor de rosa) e para uma das musas da nouvelle vague, Catherine Deneuve (A bela da tarde). Uma parceria que se firmou por anos.

 

figurino minimalista de A bela da tarde por Yves Saint Laurent, 1967, atemporal.

 

a parceria que duraria por anos

 

Yves e Deneuve em 1992. fotografia Jean-Luce Huré

 

Vestido Mondrian, 1965. Foi muito copiado na época, mas ninguém sabia da genialidade por trás das costuras: cada bloco de cor foi inserido de modo para ocultar as costuras

 

Yves era mais um couturier apaixonado pelas artes, em 1960 iniciou sua coleção com o companheiro. A primeira aquisição do casal foi um pássaro de mármore, chamado Senufo, nomeado assim pela comunidade africana que o produziu. Em 2009, um ano após a morte do estilista, Bergé decide leiloar toda a coleção, manteve para si, apenas o pássaro, uma peça certamente com valor inestimável. Como eu digo em minha mini biografia aqui no site: a arte é meu combustível, é maravilhoso percorrer o mundo das artes para poder criar e se inspirar, arte nos oferece infinitas ideias e possibilidades! Uma fonte inesgotável de conhecimento!
Pelas duas décadas seguintes, Saint Laurent reinou com o frescor da juventude dos anos 60 e a liberdade dos anos 70. Em 1966, Saint Laurent abriu a boutique na Rive Gauche com a linha prêt-à-porter e seu icônico smoking fez parte dessa coleção. O famoso Le Smoking ficou imortalizado na foto de Helmut Newton e esteve presente em cada coleção feita por seus sucessores,  Albert Elbaz, Tom Ford e Stefano Pilati.

 

Famoso smoking de Saint Laurent, imortalizado por Helmut Newton em 1975

 

Yves Saint Laurent tinha como característica na sua inventividade a ousadia: Em 1971, lançou um perfume masculino em que ele próprio ilustrou a propaganda, nu. Sete anos depois lança mais uma fragrância com nome que também foi um escândalo: Opium. Mas o escândalo foi um completo sucesso de vendas.

 

Fotografia: Jeanloup Sieff

 

Campanha de lançamento do Opium, com Jerry Hall, 1977. Fotografia: Helmut Newton

 

Yves Saint Laurent recebeu inúmeras premiações ao longo de sua carreira e, em 1983, o couturier ganhou uma exposição no MET, Metropolitan Museum of Art, organizada por Diana Vreeland. Foi a primeira retrospectiva realizada para um estilista ainda vivo.
Em Janeiro de 2002, O estilista anunciou sua decisão de encerrar sua carreira, em suas palavras:
I am proud that women all over the world wear pantsuits, tuxedoes, pea coats, and trench coats. I tell myself that I have created the contemporary woman’s wardrobe, that I have contributed to changing my era. … I want to thank the women who have worn my clothes, those who are famous and those who are not, who were loyal and who gave me so much joy. … Today I have decided to bid farewell to this career that I have loved so dearly. … I want to thank you, those who are here and those who are not, for having always been there over the years. For having supported, understood, and loved me. I will not forget you”. 

 

último desfile de Yves, 2002.

 

Após o seu afastamento, a maison continuou existindo e mantendo sua identidade. Assumiu Stefano Pilati e outros grandes nomes como mencionado mais acima. Em 2012, o nome a grife sofreu uma alteração pelo então diretor artístico Hedi Slimane, passou a se chamar apenas Saint Laurent Paris. Talvez uma indelicadeza, no meu ponto de vista, tirar o nome do responsável por toda a história da maison até aqui, sem essa mente brilhante, certamente ela nunca teria existido.

 

Referências: 

Museu Yves Saint Laurent Paris

Musée des Arts Décoratifs

MET 

FOGGIE, Marnie. Tudo sobre Moda. Editora Geral: Marnie Foggie; tradução Débora Chaves, Fernanda Abreu, Igor Korytowiski - Rio de Janeiro, Sextante, 2013.
BLACKMAN, Cally; 100 anos de moda. A história da indumentária e do estilo do século XX, dos grandes nomes da alta costura ao prêt-à-porter. 1a. edição. São Paulo: Publifolha, 2012.
STEVENSON, NJ, Crononologia da Moda, de Maria Antonieta a Alexander Mcqueen; tradução Maria Luiza X.de A. Borges. - Rio de Janeiro: Zahar, 2012. 

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